Edison Passafaro, portador de deficiência física (lesão medular) é uma personalidade muito polêmica. Administrador de empresas e aventureiro, Edison assumiu esse ano o cargo de Secretário Executivo da CPA (Comissão Permanente de Acessibilidade), órgão da SEHAB (Secretaria de Habitação do Município de São Paulo). Esse órgão da Prefeitura tem o objetivo de zelar pelo processo de acessibilidade, em todas as instâncias, dos portadores de deficiência (física, auditiva, visual, mental e múltipla) na cidade de São Paulo.
A equipe do Sentidos estará acompanhando seu importante trabalho na CPA e cobrando realizações concretas e eficazes em um curto espaço de tempo, para informarmos os nossos leitores. Cabe agora aos portadores de deficiência continuarem exigindo seus direitos básicos, assegurados na Constituição Brasileira para poder exercer seus deveres. Leiam com atenção a entrevista e apresentem suas opiniões, sugestões e críticas no
faleconosco@sentidos.com.br Conheça um pouco da personalidade deste polêmico aventureiro e não deixe de conferir as propostas e projetos da CPA.
Saiba mais "Eu gosto de ser chato, eu gosto de ser polêmico, eu gosto de fazer com que os deficientes fiquem com raiva de mim, mas eu faço eles se mexerem", afirmou Edison.

"O meu projeto de vida profissional hoje é conseguir transformar a cara de São Paulo, no sentido da acessibilidade. Eu sei que eu não vou conseguir fazer com que São Paulo seja acessível totalmente, mas eu quero melhorar muito essa questão. Eu quero pegar todos esses conhecimentos, que eu acumulei nesses anos todos e tentar colocar na prática", concluiu Edison.
Confira a entrevista: Sentidos: Conte um pouco sobre a sua vida como portador de deficiência física. Você sofreu o acidente com que idade?Edison: Eu não nasci de família rica, eu sofri um acidente quando eu tinha 19 anos de idade, minha família não tinha grana, três meses depois eu perdi meu pai, não por morte, mas porque ele teve um problema e teve de se afastar também, então eu tive que tocar a minha vida sozinho. A minha sorte, é que eles me deixaram uma certa estrutura familiar boa, ninguém estava passando fome. Eu tive um apoio familiar muito legal, muito bom, e dos amigos também. Mas fora isso, eu tive muitos problemas, tinha acabado de entrar na faculdade ...
Sentidos: Você fez faculdade do quê?Edison: Eu fiz Administração de Empresas e comecei mas não conclui a de Direito. Tudo o que eu fiz na minha vida foi depois já com cadeira de rodas. Eu fui fazer faculdade, procurar emprego, em uma época (1980) que não tinha mais nem 1 décimo da adaptação que existe hoje e falar em deficiente nem pensar. Essa história de falar em deficiências é de um 5 anos para cá.
Sentidos: Como foi o seu processo de adaptação e reabilitação?Edison: Sofri dificuldades, por exemplo, começou pela parte técnica, as cadeiras de rodas e os equipamentos naquela época eram uma porcaria, adaptação de carro não tinha quase, você tinha que fazer uma adaptação de fundo de quintal, você saia na rua ... A primeira vez que eu sai às ruas, todo mundo ficava olhando ... Você parecia doente ou um marciano ...
Sentidos: Mas você não acha que ainda é assim hoje?Edison: Mas já melhorou bem hoje. Se comparar com o que era antes ...
Sentidos: Qual foi a sua trajetória profissional após o acidente? Você encontrou receio em retornar ao trabalho ou mudou de profissão?Edison: Eu fui batalhar emprego e perdi um monte de oportunidade por causa de acesso, por exemplo, eu tinha um amigo que trabalhava na Rede Record, e ele disse que estavam precisando de um cara para apresentar um jornal, como eu tinha uma aparência razoável, apresentava bem, falava bem, porque eu sempre tive contato no meio jornalístico, publicitário, fui fazer um teste. Eu passei, mas, não pude trabalhar porque não tinha acesso, foi por uma questão técnica. Teve um outro trabalho que eu tentei em uma empresa, que um amigo gerente de um departamento, me indicou, lá eu fiz o teste e passei, mas o chefe dele não aprovou por preconceito. É uma série de questões ...
Sentidos: Você acha que ingressou na "causa dos PPDs" por quê? Conte a sua trajetória profissional até chegar hoje na CPA?Edison: Eu sofri o acidente em 1980, em 1982, eu já estava fazendo passeata na praça da Sé, com bandeirinhas em um dia de luta dos PPDs, junto com vários deficientes, inclusive com o Gilberto Frachetta que hoje é da FCD. No final de 1982 eu estava servindo de cobaia para os treinamentos na estação do metrô, os caras me carregavam para cima e para baixo, da meia noite a cinco da manhã. Participei de várias entidades, desde o MDPD (Movimento de Defesa dos Portadores de Deficiência) até eu acabei mergulhando de cabeça mesmo na questão do deficiente em 1986, foi aí que eu comecei a trabalhar na área mesmo, militar mais ferrenhamente em 1986 ... Eu tenho pouca modéstia, porque a falsa modéstia é uma droga, de dizer que eu tive uma trajetória grande nessa época, fundei o CVI (Centro de Vida Independente) de SP, participei de um monte de entidades, abri a minha empresa de adaptação de veículos em 1987 que foi a Rend Drive. Essa parte técnica aprendi muito, porque eu havia sido gerente de outra empresa. Antes de trabalhar com deficientes eu fui programador de computadores, trabalhei em uma multinacional, toquei na noite, tive uma banda de rock, trabalhei em uma agência de publicidade, como qualquer pessoa.
Sentidos: É que muitas vezes a situação econômica não dá acesso nem aos direitos ... Você não acha?Edison: Eu tive a oportunidade de ter tido uma família que me deu uma guarita, conheci um monte de cara que vive em uma favela e não sai de dentro do barraco. Agora assim como ele não sai da favela, tem um monte de pessoas deficientes que não são deficientes que não estão na favela também, é um contexto social.
Sentidos: E nas penitenciárias, têm muitos deficientes? Como é a situação deles? Tem acesso a reabilitação?Edison: O que tem de bandido deficiente também, aliás é uma coisa importante não é porque é deficiente que é bonzinho ... O que tem de deficiente ...
Sentidos: Conte um pouco da suas aventuras como esportista radical. Qual o principal objetivo de você ter se aventurado nesses esportes radicais?Edison: O primeiro objetivo é me divertir, eu vou viajar porque eu gosto, agora eu aprendi que isso serve para me ajudar a ter autoconfiança, e auto-estima, porque eu acabo superando cada vez mais os meus próprios limites, sejam eles físicos, emocionais ou psicológicos. Romper limites não é só uma questão física. Eu não salto de pára-quedas só para dizer, olha como o cara é deficiente é consegue, eu vou porque acho o maior barato! Agora eu aprendi a usar o resultado disso como ferramenta para chamar atenção da sociedade.
Sentidos: Você acha que a sua condição física influiu na escolha dos esportes? Por quê?Edison: Eu ouso dizer, que fui o cara que esteve mais na mídia. Eu já estive em todos os programas de televisão que você pode imaginar, rádio, revista ... A primeira vez que eu fui à um programa de televisão falando sobre deficiência foi em 1986, de lá para cá várias vezes por ano em todos os programas, eu acho que contribui muito para chamar a atenção da sociedade. Outra coisa que eu contribui muito foi chamar a atenção dos próprios portadores de deficiências, assim eles pensam: caramba, se aquele cara consegue mergulhar porque eu não posso também? Se aquele cara salta de pára-quedas, porque eu estou em casa reclamando da vida dizendo que não posso nada? Não que ele tenha que ir lá e saltar de pára-quedas porque vai quem quer, mas pelo menos ele vai se mexer para fazer alguma coisa, sair de casa. Essas aventuras nos esportes radicais servem para despertar a sociedade.
Sentidos: Já teve algum esporte que você foi tentar fazer e não deu certo, ou que ficou com um pouco de receio?Edison: Bom, primeiro eu acho que permanece o estigma, ou o deficiente é coitadinho ou é super herói. Eu já sofri muita crítica e gozação do tipo ele tá fazendo isso só porque quer aparecer. Eu faço essas coisas porque eu gosto.
Sentidos: E como foi o preconceito das pessoas?Edison: Preconceito eu tive mesmo, quando eu fui fazer mergulho em 1989, em 1991 eu mergulhei com a equipe do Jacques Custeau, por isso que eu falo, eu tenho muita sorte na vida! Quando eu fui fazer mergulho, os caras, que me deram aula, acharam que fosse a coisa mais difícil do mundo, mas a agente foi lá experimentou e viu que deu certo, aí alguns outros deficientes começaram a mergulhar, outros tentaram e não conseguiram, outros são grandes mergulhadores. Eu comecei a correr de kart, e introduzi o kart no Brasil, mas hoje existem caras que correm muito melhor do que eu, sou preguiçoso, não sou um típico piloto. Eu coordenei campeonato de kart adaptado durante alguns anos. No pára-quedas eu tive muito medo, soltei duas vezes e não sei se vou soltar de novo não. O balão é super legal! Quando eu fui para o Nepal fazer rafting, fui eu e mais nove deficientes, cada um superando seus próprios limites, lá tinham caras com deficiências muito menores do que a minha, mas que não sabiam nadar, outros tinham condições econômicas muito desfavorecidas ...
Sentidos: Depois de viajar por vários países, como você vê o processo de inclusão social dos PPDs hoje no Brasil? Quais as maiores diferenças e dificuldades que nós encontramos para atingirmos o nível de respeito aos PPDs?Edison: Na Austrália o povo é muito educado, o lugar é muito bonito, e extremamente acessível, e o mais legal, as adaptações lá são muito simples. Eu pegava um ônibus, no centro da cidade, por exemplo, e ia para em uma praia a 50km de distância, sozinho. Tudo era adaptado.
Sentidos: Para encerrar a entrevista ... Edison: Olha, eu tenho total tranqüilidade para fazer todas as críticas, positivas e negativas com o segmento, porque eu sou um portador de deficiência e passei e passo por uma série de dificuldades que todos passam também. Às vezes o cara fala olha e me diz ele é diferente. Diferente nada. Eu passei as mesmas dificuldades que outros tantos milhões passam também, só que existem diferenças em cada um. Uns têm mais oportunidades, outros tem menos, uns têm mais garra outros tem menos, uns tem mais condição econômica, outros têm menos.
Bate-bola: Nome: Edison Passafaro.
Profissão: Empresário e funcionário público.
Idade: não disse
Estado civil: "Sou separado, casei em 1992, fiquei dois anos casado".
Posição política: "Não tenho nenhum partido político".
Esporte preferido: "Vários, mas, uma coisa que eu gosto de fazer é mergulhar".
O que mais gosta de fazer nas horas vagas: "Primeiro dormir, depois sair à noite, namorar ..."
Lugares que gosta de freqüentar: "Eu sou um cara da noite, gosto de ir a shows, bares, restaurantes, namorar ..."
Lugares que mais gostou de conhecer ou viajar: "Meu próximo projeto é ir para Patagônia, mergulhar em Fernando de Noronha que ainda não conheço, é em Bonito".
Uma frase que representa o Brasil hoje: "Um barco sem rumo". Sonhos e projetos de vida: "Eu sonho com um país mais acessível a todos. Meu projeto de vida é cada vez mais levar uma vida simples, e independente. Essa é uma bandeira que eu sempre batalho: simplicidade e independência, com os amigos".